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Vegetarianismo – responsabilidade sócio-ambiental da boca pra dentro!

Por Beto Propheta

Desde tempos remotos, o consumo da carne de animais é praticado por muitas comunidades do globo. Nascemos, fomos educados e condicionados sob essa influência cultural, e normalmente não temos a oportunidade de questionar esses valores sociais mais arraigados. Predomina nos dias de hoje a crença, tanto popular como científica, de que a carne é um alimento de alto valor nutritivo, devido à sua concentração de proteínas, o que reafirma aqueles hábitos culturais e cria “bases sólidas” para que muitas iniciativas estimulem a dieta carnívora, acreditando ser este um meio de se aliviar os problemas da fome e má nutrição no mundo. No entanto, esses valores e crenças relacionados à alimentação, assim como o atual sistema de produção de alimentos, têm se mostrado prejudiciais à sociedade e ao meio ambiente, além de contribuir para o aquecimento do clima global, o que não era esperado por aqueles que incentivaram o consumo de carne. Neste artigo, procuramos abordar e esclarecer essa questão.

As criações de animais para consumo humano contribuem largamente para a escassez de água potável em nosso planeta, que já afeta severamente a muitos países e tende a se agravar. Em muitas regiões do mundo, mais de 50% do uso total de água é para a criação de animais. Além disso, os bilhões de toneladas de estrume e urina produzidos por esses animais poluem a água, o que, além de torná-la imprópria para consumo, causa a morte de peixes e propaga agentes patogênicos que ameaçam a saúde humana. Somente os animais criados para consumo humano nos EUA produzem 130 vezes mais excrementos do que toda a população mundial!

A produção de animais também acarreta degradação da terra. A criação de gado é um dos principais responsáveis pela destruição das florestas tropicais, que são queimadas e devastadas para abrir pastos, gerando enorme perda de biodiversidade. O excesso de pastagem nesses locais gera diminuição da fertilidade do solo e desertificação. Mais de dois terços da superfície agrícola mundial, aproximadamente um terço da terra do planeta, é ocupada com criação de animais para consumo humano. Para cada quilograma de hambúrguer feito de carne produzida na América Central, estima-se que aproximadamente 10m² de floresta tropical são destruídos.

Além disso, a superprodução de grãos necessária para alimentar tantos animais criados para consumo resultou de práticas agrícolas insustentáveis, incluindo monoculturas e uso abusivo de fertilizantes e pesticidas, o que esgota os nutrientes do solo fértil mais rapidamente que as possibilidades de recomposição, polui a água e leva à evolução de insetos resistentes a pesticidas.

As criações também contribuem significantemente para a poluição do ar e para o efeito estufa, que terá conseqüências devastadoras no futuro segundo as previsões atuais. Os animais emitem diretamente dióxido de carbono e metano por meio de processos biológicos, e seu estrume emite amônia, que causa chuva ácida. Mais gases nocivos são emitidos na atmosfera pela queima de florestas para abrigar pastos e pelo transporte envolvido na produção desses animais, considerando que a produção de animais envolve substancialmente mais transporte do que a produção de alimentos vegetais. Calcula-se que cerca de um quarto da emissão excessiva de gases estufa por ação humana na atmosfera provém da indústria de carne animal.

Os padrões de consumo de carne nas nações industrializadas contribuem para a existência e distribuição da fome pelo mundo, com a perpetuação de ciclos de pobreza que afetam a distribuição de alimentos, e a limitação da produção total de alimentos. Fome crônica afeta cerca de 20% da população mundial. Todos os dias, mais de 40.000 pessoas morrem por conseqüências da fome.

A acessibilidade a alimentos por pessoas pobres é prejudicada devido a um sistema de desenvolvimento e comércio imposto ao mundo subdesenvolvido pelas nações do norte, que demanda dos países pobres o cumprimento de seus débitos internacionais pela produção de commodities que possam ser exportadas às nações ricas, como café, algodão, cacau e grãos para alimentar animais criados para consumo. Muitos países pobres exportam grãos para alimentar as produções de animais e importam grãos para alimentar as pessoas.

Acredita-se que uma produção adequada de alimentos no futuro é quase impossível se as tendências atuais de consumo persistirem. Essas tendências estão intimamente relacionadas à criação de animais, que usa terras agriculturáveis para a criação de animais e não para a plantação, o que seria muito mais eficiente.

A produção de animais para consumo humano, avaliada em termos de quantidade de proteínas ou energia produzida por hectare, é muito ineficiente quando comparada com o cultivo de vegetais. Os animais também são pobres conversores de energia em alimento para seres humanos. Em média, para cada 7 Kcal ingeridas em grãos os animais fornecem 1 Kcal quando consumidos por nós. 38% dos grãos produzidos globalmente são servidos a animais. Além disso, animais produzidos para consumo ocupam grandes áreas de terra fértil, que poderiam estar sendo usadas mais eficientemente pela produção de grãos para alimentar humanos. Considerando ainda outros recursos necessários na produção de grãos e carne, como a água usada pelas plantas e animais, terra para campos e pastos e combustível para transporte, se torna evidente que a produção de carne gera mais poluição e utiliza mais terra, água e grãos do que a ingestão direta de alimentos vegetais para fornecer o mesmo número de calorias aos seres humanos. Mesmo modestas reduções no consumo de carne levariam a um menor desperdício de recursos. Por exemplo, duas vezes mais água é necessária para proporcionar a dieta média dos EUA do que as dietas de mesmo valor nutricional na Ásia e Europa, devido às diferenças na quantidade de carne consumida.

Uma dieta vegetariana, por virtude de sua eficiência inerente, pode aliviar a fome no mundo agindo sobre o suprimento de alimentos e pobreza. Se práticas vegetarianas fossem adotadas largamente, a energia, terra, grãos e outros recursos atualmente usados para alimentar animais produzidos para consumo poderiam ser canalizados diretamente para uso humano. A eliminação das criações de animais para consumo possibilitaria o uso de uma maior porção de terra para plantações, que necessita de muito menos terra para produzir muito mais comida, gerando um maior suprimento de alimentos. Além disso, a eliminação de um regime de criação de animais multinacional, que exige que nações de baixa renda produzam commodities como grãos para alimentar criações em países ricos, possibilitaria às nações pobres o retorno à agricultura de subsistência, que garante uma distribuição mais justa. A eliminação da produção de carne também levaria a uma queda no preço de todos os alimentos, uma vez que muito desperdício econômico na produção seria removido.

Tanto do ponto de vista popular como do científico, a carne é um alimento de alto valor nutritivo. Ainda que esteja claro que a carne não é essencial na dieta, como testemunham todos os vegetarianos que têm uma alimentação adequada, a inclusão de produtos animais torna mais fácil de se assegurar uma dieta completa do ponto de vista nutricional, mas não sem custos à saúde. O consumo de carne está associado a muitos efeitos negativos à saúde humana.

Poluição e perda de biodiversidade são caminhos indiretos pelos quais o consumo de carne afeta adversamente a saúde humana, estando associadas a várias doenças e à perda de remédios potenciais e modelos de pesquisa. Além disso, muitos antibióticos são administrados a animais criados para o consumo humano, muitos dos quais são estruturalmente similares ou idênticos àqueles usados terapeuticamente para tratar infecções humanas. Antimicróbicos dados aos animais selecionam espécies de agentes patogênicos resistentes a esses antibióticos. Muitos estudos isolaram agentes patogênicos resistentes a importantes antibióticos da carne de animais criados para consumo, e comprovaram que grande parte desses animais é contaminada. Outros estudos mostram que espécies resistentes de micróbios podem sobreviver à passagem gástrica e colonizar a barriga humana após o consumo de carne. Centenas de outras substâncias químicas são ministradas aos animais que consumimos, incluindo agentes bloqueadores de beta-adrenoreceptores (usados para prevenir morte repentina em porcos devido ao stress durante seu transporte), hormônios de crescimento, anti-helmínticos, tranqüilizantes, vasodilatadores, entre outros. Resíduos dessas drogas podem permanecer nos tecidos dos animais (e no leite) consumidos pelos humanos. Além disso, alimentos de origem animal contribuem para cerca de 80% de toda a exposição humana a dioxinas, que possuem uma larga série de efeitos tóxicos e bioquímicos, e algumas delas são conhecidos agentes cancerígenos para humanos.

Para finalizar nossa exposição, falemos um pouco sobre nutrição. A base de uma boa dieta – adequada ao crescimento, desenvolvimento e manutenção da saúde – é variedade; uma boa variedade de alimentos pode suprir o suficiente de todos os nutrientes de que necessitamos. Grande parte da má nutrição encontrada no mundo é resultado do uso demasiado de apenas um tipo de alimento como principal fonte nutritiva.

Uma dieta adequada em energia é quase sempre adequada em proteínas – tanto em quantidade como em qualidade. Por exemplo, um adulto necessita de uma quantidade de proteínas equivalente a 7 – 8% de seu consumo total de energia, e desde que todos os cereais contêm 8 – 12% de proteínas, mesmo uma dieta composta inteiramente de cereais seria suficiente para satisfazer as necessidades de proteínas, se fosse consumido suficiente para satisfazer as necessidades energéticas.

Na cultura popular de muitos países, acredita-se comumente que o vegetarianismo possui efeitos adversos à saúde como anemia e deficiência de vitamina B-12. Apesar de isto poder ocorrer em dietas vegetarianas que se desviam muito dos padrões ótimos, isso também pode ocorrer em dietas onívoras sub-ótimas. A preponderância de evidencias em literatura de nutrição indica que, de forma adequada, dietas ovo-lacto-vegetarianas fornecem nutrição adequada por toda a vida humana e podem ser mais saudáveis do que dietas onívoras. Muitos estudos comprovaram que dietas vegetarianas são adequadas para crianças e bebês. Inversamente, consumo elevado de carne possui conseqüências adversas à saúde.

A maior parte das dietas vegetarianas são caracterizadas por conter muitos legumes, frutas, grãos integrais, castanhas, nozes e vegetais em geral, que promovem benefícios à saúde. Estudos comprovam que ovo-lacto-vegetarianos possuem maior ingestão e nível sanguíneo de vitaminas antioxidantes e consomem menos gordura total e mais gordura vegetal do que os praticantes de onivorismo.

As maiores causas de morte em muitos países industrializados são doenças cardíacas, câncer e derrame cerebral. Muitos pesquisadores examinaram os fatores de risco para essas doenças em vegetarianos e onívoros, controlando fatores não relacionados à dieta, como fumo, nível de exercícios, idade e sexo, e descobriram que vegetarianos ocidentais possuem menor risco de doenças cardiovasculares, ateroscleroses, dispnéia, câncer (especialmente de cólon, mama e próstata), apnéia noturna, hipertensão e menor nível de concentração total de colesterol no plasma. Estima-se que se uma dieta vegetariana fosse adotada largamente na Inglaterra isso poderia evitar aproximadamente 40.000 mortes por doenças cardíacas isquêmicas a cada ano naquele país.

Pessoas onívoras sofrem desproporcionalmente mais de diversas outras doenças quando comparados aos vegetarianos. O risco relativo de diabetes em vegetarianos é menor. Ovo-lacto-vegetarianos são também mais sensíveis a insulina. Isso se deve às menores reservas de ferro entre os vegetarianos do que entre os onívoros. Vegetarianos normalmente comem alimentos com baixos índices de glicemia como feijão, legumes e grãos integrais. O consumo regular de tais alimentos reduz a incidência de diabetes em 40%, mesmo após controle de outros fatores de risco, como respostas de insulina e glucose sanguínea pós-prandial. Vegetarianismo é também associado a menor risco de constipação, doença diverticular, cálculo biliar e apendicite.

Como vimos neste artigo, a produção de carne, englobando tanto a criação de animais para consumo humano como a produção de bens para mantê-los, resulta em conseqüências negativas tanto de curto quanto de longo prazo. Além de, em geral, ser menos saudável consumir carne em vez de obter calorias a partir de outros recursos, isso é também menos eficiente, utilizando uma quantidade muito maior de energia, grãos, terras e água do que a produção de alimentos de origem vegetal. Essa ineficiência gera um grande número de fenômenos prejudiciais inter-relacionados. A enorme quantidade de recursos necessários para produzir carne se traduz na poluição da terra, água e ar. A indústria da carne é responsável pelo desmatamento de algumas das mais valiosas reservas florestais de nosso planeta, o que, dentre outras conseqüências, reduz a biodiversidade. “Gases-estufa” gerados pelas criações dos animais que consumimos também contribuem para uma mudança climática. Já que, usando os recursos disponíveis, os seres humanos produzem menos calorias por meio de carne e vegetais do que produziriam apenas por fontes vegetais, a produção de carne ameaça a garantia de alimentos para o imenso número de seres humanos neste planeta. A estrutura global da produção e consumo de carne também cria um sistema de desigualdade entre nações, sexos, e entre pessoas de diferentes idades. Além disso, o consumo de carne por seres humanos concentra substâncias perniciosas e correlacionadas à obesidade, doenças cardiovasculares, câncer, entre outras doenças comuns do mundo industrializado. Por fim, o consumo de carne por algumas comunidades humanas ameaça a saúde das demais, contribuindo para o surgimento de novos agentes patogênicos resistentes a antibióticos e degradando o ambiente comunitário.

“Quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante.”
Albert Schwweitzer (Nobel da Paz – 1952)

Melhores esclarecimentos e as referências bibliográficas que fundamentam este artigo podem ser encontrados na seguinte monografia, disponível na biblioteca da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo:

MARQUES, Roberto Propheta, “Os impactos Sócio-Ambientais da Produção e Consumo de Carne Animal”, 2003